Anais do III Simpósio de Nutrição Materno-Infantil e Saúde da Mulher do Centro-Oeste

Ciência que transforma o cuidado: conheça os 14 trabalhos dos Anais do III Simpósio de Nutrição Materno-Infantil e Saúde da Mulher do Centro-Oeste

Da queda de cabelo ao lipedema, da gestação ao eixo intestino-cérebro: as pesquisas apresentadas em Goiânia mostram como a nutrição baseada em evidências responde às perguntas que chegam todos os dias ao consultório.

Todo nutricionista já ouviu uma paciente perguntar: “Por que meu cabelo está caindo tanto?”, “Essa dieta da moda funciona mesmo?” ou “O que eu como pode mexer com o meu humor?”. Perguntas simples na forma, mas que pedem respostas sérias, fundamentadas na ciência.

Foi exatamente isso que os pesquisadores buscaram responder no III Simpósio de Nutrição Materno-Infantil e Saúde da Mulher do Centro-Oeste, realizado pelo Instituto LG nos dias 16 e 17 de outubro de 2026, em Goiânia. Ao longo dos dois dias, 14 trabalhos científicos foram aprovados pela Comissão Científica e apresentados em banners digitais exibidos durante todo o evento. Os melhores avaliados ainda subiram ao palco principal.

Agora, esses trabalhos estão reunidos nos Anais do III Simpósio de Nutrição Materno-Infantil e Saúde da Mulher do Centro-Oeste. Nesta matéria, você conhece os principais achados de cada um e entende por que eles importam para a sua prática.

Os trabalhos em destaque

Saúde da mulher: do fio de cabelo à gestação

O cabelo como espelho da saúde. Um dos trabalhos que subiram ao palco principal, de Rayane Shaira da Silva Pinho (Centro Universitário Araguaia) e Elaine Fernanda da Silva (UFG), investigou a relação entre alimentação, intestino e queda capilar feminina. A revisão mostra que dietas pró-inflamatórias, ricas em açúcares e ultraprocessados, fragilizam a barreira intestinal e mantêm uma inflamação crônica de baixo grau. Nesse “modo sobrevivência”, ferro, zinco e vitamina D são desviados do folículo piloso para órgãos vitais. A conclusão é forte: a queda de cabelo pode ser um sinal de desequilíbrios sistêmicos, e o cuidado passa pela modulação da microbiota.

Transtornos alimentares na gestação e no pós-parto. A revisão reúne nove estudos, incluindo uma coorte sueca com mais de 1,2 milhão de mulheres. Transtornos alimentares, ativos ou prévios, associaram-se a mais complicações gestacionais e neonatais. Na Dinamarca, 25% das mulheres em remissão tiveram recaída durante a gestação. O recado para a prática: acompanhamento multiprofissional, com avaliação nutricional, desde o início.

Lipedema: o que a nutrição pode fazer. Doença que acomete quase só mulheres e é frequentemente confundida com obesidade, o lipedema ganhou uma revisão de sete estudos. Um deles estimou

prevalência de 12,3% em brasileiras. Dietas cetogênica e de baixo carboidrato foram associadas à perda de peso e, em parte dos estudos, à redução da dor e à melhora da qualidade de vida.

Comportamento alimentar e obesidade: além da dieta

Quatro trabalhos olharam para a relação com a comida, não só para o prato.

• Nutrição comportamental no excesso de peso: o mindfulness somado a um programa comportamental aumentou a perda de peso em 2,8 kg. Usado sozinho, não reduziu o peso, mas diminuiu o estresse e a alimentação emocional.

• Transtornos alimentares na obesidade: em 11 ensaios clínicos, terapias como TCC, HAPIFED e atenção plena trouxeram benefícios, sem uma abordagem única superior. O cuidado precisa ser personalizado.

• Anorexia nervosa e bulimia: em um seguimento de 5 anos, 41% das mulheres com anorexia tiveram recuperação completa e outros 41%, parcial. Na realimentação hospitalar, 2.000 kcal/dia restauraram a estabilidade médica mais cedo que 1.400 kcal/dia.

• Estratégias dietéticas na obesidade: em oito ensaios randomizados, dietas com restrição de carboidratos e jejum intermitente levaram a maior perda de peso que alguns comparadores. Mas o seguimento foi curto: a escolha deve ser individualizada.

Intestino, microbiota e mente

O eixo intestino-cérebro foi um dos temas mais fortes do simpósio.

• Probióticos e depressão (duas revisões): cepas específicas, como Bifidobacterium breve CCFM1025, reduziram escores de depressão em alguns ensaios. Os resultados ainda são heterogêneos: os probióticos são um adjuvante promissor, não um tratamento isolado.

• Alimentação e sintomas depressivos: dietas de estilo mediterrâneo e ricas em polifenóis reduziram sintomas depressivos em dez estudos. Multinutrientes isolados não diferiram do placebo.

• Síndrome do intestino irritável: a dieta com baixo teor de FODMAPs reduziu sintomas, e a dieta com restrição de amido e sacarose teve eficácia parecida, com melhor perfil nutricional.

• Da anamnese à intervenção (relato de caso): Paulo Fernando Medeiros da Silva mostrou como uma anamnese bem-feita mudou o quadro de uma paciente com constipação severa. Trocando ultraprocessados por alimentos in natura, ela passou a evacuar diariamente em poucos dias e teve alívio de azia e má digestão na primeira semana.

Prevenção e doenças crônicas

• Ômega-3 e Alzheimer: em 14 artigos, o DHA aparece como potencialmente benéfico para reduzir o risco e desacelerar a progressão da doença. Os achados são preliminares e pedem ensaios controlados.

• Alimentação e câncer de cabeça e pescoço: padrões ricos em vegetais, peixes e a dieta mediterrânea associaram-se a menor risco. Tabagismo e álcool continuam sendo os principais fatores, e a prevenção precisa integrar tudo isso.

Fechamento

O que esses trabalhos têm em comum

Em quase todos os estudos, uma mensagem se repete: não existe conduta única. Os melhores resultados aparecem quando a nutricionista olha para a paciente como um todo, considerando intestino, emoções, fase da vida e história clínica. É a ciência confirmando o que o cuidado individualizado já ensina.

Os trabalhos também mostram uma nova geração de pesquisadores em Goiás, de estudantes de graduação a docentes, produzindo ciência de qualidade sobre temas que impactam a vida real.

Leia os anais completos

Os 14 resumos, com metodologia, resultados e autores, estão disponíveis nos Anais do III Simpósio de Nutrição Materno-Infantil e Saúde da Mulher do Centro-Oeste.

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Parabéns a todos os autores e orientadores pelos trabalhos apresentados. Em memória do Prof. Dr. Xisto Sena Passos, coautor de seis dos trabalhos apresentados.